• raquelandreatta

PERDER-SE PODE SER A MELHOR FORMA DE ENCONTRAR-SE

Muito bem amigos, aqui estou eu novamente pronta para abrir o meu coração.

Estou cada dia mais apaixonada por partilhar vivências. Percebi que experiências de pessoas aleatórias foram fundamentais na formação da minha coragem, e muitas vezes elas sequer imaginam isso. Todas as pessoas que já passaram pela minha vida, todos os textos que já li, os filmes que assisti, as conversas que já participei ajudaram a criar esta mente e esta alma que agora fala convosco.

Isso é muito louco...

Semana passada eu andava pelo bairro mais típico de Lisboa: Alfama. Fui visitar um cliente da Cerveja Artesanal. As pessoas de Alfama têm características muito peculiares e por isso encanta-me muito conversar com elas.

O negócio é familiar, lá trabalha o pai, a mãe, o filho, o primo, a esposa e por aí ... Uma tasca portuguesa de 12 metros quadrados e mais de 10 funcionários. O típico lugar que você pode chegar bem a vontade.

Quando eu lá cheguei, toda feliz, gritando pelos donos e fazendo parte da turma, um deles contou-me que abriram novo espaço na rua de cima.

Explicou-me:

- Miúda, viras a direita, depois a esquerda, logo verás umas escadinhas, sobes, depois continua nas escadinhas da direita, vais ver dois vasos verdes e pronto, já está.


Hmm.. fácil, pensei eu, “logo na rua de cima”. Ok.


O primo soltou um berro:

- Tas parvo ou o que? Vais fazer a miúda andar desse tanto. Oh pá!! Não.

Voltou-se para mim:

- Não escute este maluco. Faças assim: viras a esquerda, depois a direita, vais andar um bocadinho e depois vais ver umas escadinhas, desce, viras nas escadas da esquerda e logo verás dois vasos verdes e pronto, já está, muito mais fácil.


Eu me conhecendo já sabia que ia me perder independentemente de qual conselho seguisse, mas não quis magoar o dono, que é quem faz as encomendas e por isso resolvi seguir o primeiro conselho.

Eles discutiram mais um pouco entre si, gritaram um bocado e eu segui o meu caminho.


Dito e feito. Perdi-me. Óbvio.


Lembrei-me da minha primeira semana em Lisboa.


Quando cheguei aqui fui morar perto de Alfama e costumava fazer turismo por lá. Perdia-me sempre naquelas ruelas, escadarias sem fim e suas inúmeras formas de chegar ao mesmo lugar. Não entendia como era possível as ruas serem tão tortas e sem nenhum nexo. Estressava-me ao pensar que estava perdendo tempo ao tentar chegar a um lugar e perder-me tantas vezes.


Anos depois continuo perdendo-me por lá. Mas percebi que algo muito maior havia mudado em mim: aprendi a relaxar. Perder-me hoje não é mais desesperador como era antes. Hoje eu confesso que acho muito divertido e gostoso perder-me. Pois é nessas horas que o mistério acontece. Que o inesperado e o novo passam a operar, justamente quando saímos um pouco da rota programada. E a vida é feita de momentos não programados. E isto é muito lindo.

Percebi o quanto estou cada dia mais apaixonada por mistérios, por não saber o que vai acontecer daqui a bocado, de não fazer ideia do quanto pode ser mais emocionante virar a esquina e se deparar com o novo justamente ali. Aquilo que você não imaginava que poderia encontrar mas que mudará a sua vida.


Nos cobramos muito em acertar sempre. Escolhemos um caminho para trilhar e não valorizamos quando aquilo foge ao nosso controle. Pelo contrário, nossa ânsia por controlar tudo e chegar ao “fim da linha” para dizer que conseguimos alcançar exatamente aquilo que havíamos planejado nos afasta cada dia mais da felicidade que é esbarrar no novo, no inesperado e seguir novos caminhos.


A cobrança social ensina que existe uma única escada, e que aos 18 anos de idade você escolherá qual é a sua e seguirá nela até atingir o ápice, o pódio, ser o melhor de todos, o melhor de sempre e depois disso poderá descansar em paz. Cruzar as mãos enrugadas, apoiá-las na barriga, repousar as costas na poltrona, serrar os olhos e descansar ao som dos passarinhos.


"Pronto, terminei. Agora posso relaxar. Fiz tudo o que tinha de ser feito. Fiz carreira, casei, tive filhos, comprei uma casa, ganhei dinheiro, agora estou em paz, posso ler um livro e ser feliz".

Na parede medalhas, diplomas e papéis mostrarão o poder de uma vida inteira.


Concluí que não desejo isso.

Tudo bem você querer trilhar uma carreira e ter escolhido logo aos 18 anos o que queria para a sua vida e não mais mudar de ideia. Tudo bem mesmo, e eu admiro muito você e principalmente o aconselho a agradecer muito pois é uma pessoa de muita sorte.


O problema ao meu ver é quando nos cobramos e nos obrigamos a ter este desejo.


Cada dia mais vejo uma geração de jovens infelizes, depressivos, sem rumo porque não conseguem ser como seus pais. Jovens que se culpam por questionar, por ter dúvidas, como se fosse sinônimo de algo errado. Que as pessoas querem viver a partir de receitas de bolos enquanto a vida é justamente o oposto disto.


Não existe receita ideal para viver. Não existe um jeito apenas de ser feliz. Não existe apenas uma maneira de ganhar dinheiro e nem de ter independência financeira.


Na minha vida independência financeira sempre foi uma questão muito importante. Sempre desejei liberdade e sabia que no mundo de hoje ter o seu próprio dinheiro consequentemente traz alguma liberdade.


Escolhi uma profissão olhando o mapa do mercado de trabalho e onde ali eu poderia me encaixar melhor, ter mais oportunidades.

Bem, quem faz Direito tem um leque de opções, são muitos os concursos públicos que poderão proporcionar-me estabilidade financeira, muitos dias de férias e a chance de progressão na minha carreira. Pronto está decidido. Ingressei na faculdade e logo na primeira semana de aula percebi que não era a única com este propósito.


A vida trouxe-me a Lisboa. Perdi-me em Alfama mas encontrei novos caminhos que quero trilhar.


Aprendi que a cada caminho “errado” é uma oportunidade de chegar num lugar que nem você imaginava mas que poderá te preencher por dentro e te trazer a felicidade.

Aprendi que felicidade é paz, é um meio e não um fim.


Hoje, a um oceano de distância da minha família, alcancei minha independência financeira e não precisei de um concurso público. Sou quem financia os meus próprios sonhos, mas não posso deixar de agradecer quem me trouxe até aqui: minha querida mãe.


Para alguns, estou perdida.

Para mim, encontrei-me.






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